Saúde das gengivas e do cérebro: o que a ciência revela

Pode surpreendê-lo, mas o simples ato de escovar os dentes e passar fio dental pode ser uma arma secreta para proteger seu cérebro. Um crescente conjunto de pesquisas sugere que a saúde das gengivas não envolve apenas os brancos perolados; pode desempenhar um papel crucial na mitigação do risco da doença de Alzheimer (DA). Desde bactérias à espreita na boca até produtos químicos inflamatórios que fluem pela corrente sanguínea, veja como a saúde bucal e a saúde do cérebro estão profundamente conectadas.

Compreendendo a doença periodontal

A doença periodontal, comumente conhecida como doença gengival, é uma inflamação crônica das gengivas e estruturas adjacentes. Afeta até 50% dos adultos em todo o mundo, com formas graves afetando cerca de 10%.[1]Quando patógenos como Porphyromonas gingivalis (P. gingivalis) invadem a gengiva, eles desencadeiam uma cascata de inflamação marcada por níveis elevados de interleucina-6 (IL-6), proteína C reativa (PCR) e fator de necrose tumoral-α (TNF-α). Esta inflamação sistémica torna-se um factor de risco não apenas para problemas orais, mas para problemas de saúde mais amplos, incluindo potencialmente a contribuição para a doença de Alzheimer.[3]

Bactérias da gengiva chegando ao cérebro

Num estudo marcante de 2019, os investigadores detectaram P. gingivalis e as suas enzimas tóxicas, chamadas gengipaínas, nos cérebros de quase todos os pacientes com Alzheimer examinados. Estas enzimas pareciam destruir o tecido neuronal e promover a formação de placas beta-amiloides (Aβ), que é uma marca registrada da doença de Alzheimer.[4]Experimentos em animais mostraram que P. gingivalis viaja da boca até o cérebro, onde as gengivas causam danos aos neurônios.[5]

Evidência Epidemiológica

Dados clínicos em grande escala

Uma análise da base de dados TriNetX envolvendo mais de 30 milhões de indivíduos mostrou que as pessoas com má saúde oral tinham um risco 2,36 vezes maior de desenvolver Alzheimer em comparação com aquelas com boa saúde oral. Entre os fatores de risco, destacaram-se condições como perda dentária e cárie dentária, com doenças relacionadas à perda dentária apresentando risco ainda maior (RR ≈ 3,19).[6]

Estudos de coorte e revisão sistemática

Um estudo retrospetivo de coorte correspondente de 2024 descobriu que a periodontite crónica ao longo de dez anos estava associada a um aumento de 1,7 vezes no risco de Alzheimer. Uma revisão sistemática de seis estudos concluiu que pessoas com doença periodontal apresentam um risco significativamente maior de DA, embora tenha recomendado cautela devido a limitações metodológicas.[8]

Correlações de imagens

Uma pesquisa que analisou 468 adultos mais velhos, incorporando exames periodontais, perfis de microbioma oral e ressonâncias magnéticas cerebrais descobriu que as características da periodontite se correlacionavam com alterações de ressonância magnética relacionadas ao Alzheimer, mesmo após ajuste para fatores de risco estabelecidos.[9]

Perda dentária

A perda dentária não é apenas cosmética, pode sinalizar o aumento do risco de Alzheimer. Um estudo observou que, para cada dente perdido, o risco de demência aumentava 1,1% e o comprometimento cognitivo, 1,4%.[10]Essas descobertas falam sobre a importância de manter uma dentição saudável à medida que envelhecemos.

A ponte inflamatória

A inflamação sistémica, enraizada na doença crónica das gengivas, pode ser um caminho chave pelo qual a saúde oral tem impacto na saúde do cérebro. Uma revisão abrangente de 2025 descobriu que a placa bacteriana, o sangramento gengival e a doença periodontal estão frequentemente associados ao declínio cognitivo, potencialmente mediado pela inflamação sistêmica que exacerba a neurodegeneração.[11]E, em pessoas já diagnosticadas com Alzheimer, a presença de doença gengival foi associada a um declínio de memória seis vezes mais rápido ao longo de seis meses, possivelmente devido a mecanismos inflamatórios.[12]

A ligação é causal ou apenas correlativa?

Embora as evidências apoiem fortemente uma associação, o debate sobre a causalidade continua:

Causalidade reversa

Os pacientes com Alzheimer podem negligenciar a higiene oral à medida que o comprometimento cognitivo progride, piorando a doença gengival.[13]

Caminhos compartilhados

Tanto a DA como a doença periodontal envolvem inflamação e desregulação imunológica, sugerindo fatores de risco sobrepostos.[14,15]

Apesar dessas nuances, evidências crescentes de detecção de bactérias, imagens e dados em grande escala sugerem uma ligação significativa.

O que está acontecendo nos bastidores

Os cientistas estão a investigar como os agentes patogénicos orais como a P. gingivalis podem contribuir para a doença de Alzheimer a nível biológico. Algumas hipóteses incluem:

  • Exossomos como transportadores:Um novo estudo financiado pelo NIH está investigando como os exossomos (pequenas vesículas liberadas durante a infecção gengival) podem cruzar a barreira hematoencefálica e enviar sinais microbianos prejudiciais ao cérebro.[16]
  • Inflamassomos:Tanto a doença periodontal como a doença de Alzheimer estão ligadas à ativação do inflamassoma NLRP3; bloquear isso pode ajudar a tratar ou prevenir ambas as condições.
  • Exposição microbiana e cascata imunológica:As bactérias orais podem induzir a deposição de amiloide no cérebro como uma resposta imunológica, agravando a patologia.

Promovendo a saúde do cérebro através da higiene oral

Mesmo enquanto a ciência continua a desvendar esta ligação, você pode agir agora:

  • Escovação diária e uso do fio dental:ações fáceis e gratuitas com grande recompensa.[18]
  • Exames dentários regulares,especialmente para sinais precoces de doença gengival, para remover a placa bacteriana e prevenir a progressão.[19]
  • Terapia periodontal profissional:Alguns estudos mostram que o tratamento de doenças gengivais pode retardar a atrofia cerebral relacionada ao Alzheimer e apoiar a saúde cognitiva.
  • Hábitos de estilo de vida:Mantenha uma dieta balanceada, evite fumar e controle a inflamação sistêmica para apoiar a saúde bucal e cerebral.