Guia abrangente para o metabolismo dos ácidos biliares: síntese, função e implicações para a saúde

Os ácidos biliares, os principais componentes da bile, desempenham um papel essencial no sistema digestivo, facilitando a emulsificação e absorção das gorduras alimentares. Seu ciclo de vida – abrangendo a síntese no fígado até a reabsorção nos intestinos – é um processo complexo, mas bem ajustado. Este artigo fornece uma exploração aprofundada do metabolismo dos ácidos biliares, esclarecendo os intrincados mecanismos que sustentam a nossa saúde digestiva.

Síntese de ácidos biliares: nascimento no fígado

Os ácidos biliares são sintetizados no fígado a partir do colesterol, um processo que ocorre em vários estágios envolvendo várias enzimas. Existem duas vias principais para a síntese de ácidos biliares: a via clássica (ou neutra) e a via alternativa (ou ácida).

Caminho Clássico:

  • Iniciação: A via clássica é iniciada pela enzima colesterol 7α-hidroxilase (CYP7A1). Esta enzima converte o colesterol em 7α-hidroxicolesterol.
  • Progressão: Os intermediários 7α-hidroxicolesterol e 7α-hidroxi-4-colesten-3-ona sofrem novas transformações, levando à produção de ácido cólico (CA).
  • Esta via é responsável por cerca de 75% da síntese total de ácidos biliares em humanos.

Caminho Alternativo:

  • Iniciação: Iniciada pela enzima colesterol 27-hidroxilase (CYP27A1), esta via converte o colesterol em 27-hidroxicolesterol.
  • Progressão: Eventualmente, o 27-hidroxicolesterol é transformado em ácido quenodesoxicólico (CDCA) através de várias etapas enzimáticas.
  • A via alternativa é responsável pelos 25% restantes da síntese de ácidos biliares.

Uma vez sintetizados, estes ácidos biliares primários (CA e CDCA) são conjugados com aminoácidos (glicina ou taurina) para aumentar a sua solubilidade, resultando na formação de sais biliares.

Secreção de ácidos biliares e viagem ao intestino

O fígado secreta os sais biliares recém-formados na bile, que é então armazenada e concentrada novesícula biliar. Após a ingestão de alimentos – principalmente gorduras – a vesícula biliar se contrai, liberando a bile no duodeno (a seção inicial do intestino delgado).

No intestino, os sais biliares emulsionam as gorduras, auxiliando na sua digestão e absorção. Durante este processo, alguns sais biliares são desconjugados e transformados porbactérias intestinais, resultando em ácidos biliares secundários: ácido desoxicólico (de CA) e ácido litocólico (de CDCA).

Reabsorção: A Circulação Entero-hepática

Os ácidos biliares e os sais biliares não servem apenas para uma finalidade única. Uma parte significativa deles é reabsorvida para ser reciclada no que é conhecido como circulação entero-hepática. 

  • Absorção Ileal: A maioria dos ácidos biliares é eficientemente absorvida no íleo (a última seção do intestino delgado) por meio de transporte ativo, facilitado pelo transportador apical de ácidos biliares dependente de sódio (ASBT).
  • Voltar ao fígado: Uma vez reabsorvidos, os ácidos biliares são transportados pela veia porta de volta ao fígado.
  • Reciclagem: O fígado absorve esses ácidos biliares retornados por meio de transportadores específicos, removendo-os da circulação e reincorporando-os na nova bile.
  • Este processo de reciclagem é altamente eficiente, com o fígado recuperando aproximadamente 95% dos ácidos biliares. Os 5% restantes que escapam à reabsorção são excretados nas fezes.

Metabolismo e doenças dos ácidos biliares

O metabolismo dos ácidos biliares está envolvido em uma série de doenças, incluindo:

  • Obstrução do ducto biliar: A obstrução do ducto biliar pode ocorrer devido acálculos biliares, tumores ou inflamação. Isso pode levar ao acúmulo de ácidos biliares no fígado, o que pode danificar as células do fígado.
  • Má absorção de ácidos biliares: A má absorção de ácidos biliares é uma condição na qual os ácidos biliares não são absorvidos adequadamente nos intestinos. Isso pode levar à má absorção de gordura e outros problemas de saúde.
  • Carcinoma Hepatocelular: O carcinoma hepatocelular é um tipo decâncer de fígadoque está frequentemente associado a níveis elevados de ácidos biliares no fígado.

Conclusão

O metabolismo dos ácidos biliares é uma jornada fascinante de síntese, função, transformação e reciclagem – uma prova da eficiência e do design complexo do corpo. Os processos de síntese de ácidos biliares no fígado e reabsorção nos intestinos garantem uma ótima digestão e absorção de nutrientes, enfatizando o papel indispensável destes compostos na nossa saúde geral. 

Referências:

  1. Hofmann, AF (2009). A importância contínua dos ácidos biliares nas doenças hepáticas e intestinais.Arquivos de Medicina Interna, 159(22), 2647-2658.
  2. Chiang, JY (2013). Metabolismo e sinalização dos ácidos biliares.Fisiologia Abrangente, 3(3), 1191-1212.
  3. Dawson, PA, Karpen, SJ (2015). Transporte intestinal e metabolismo dos ácidos biliares.Jornal de Pesquisa Lipídica, 56(6), 1085-1099.