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Principais conclusões
- As lobotomias não são mais realizadas porque agora são consideradas antiéticas e obsoletas.
- Os dois principais tipos de lobotomias foram a lobotomia pré-frontal e a lobotomia transorbital.
- As lobotomias foram interrompidas porque causavam danos e apresentavam alto índice de complicações.
A lobotomia frontal, também conhecida como leucotomia, é um tipo de cirurgia que corta as vias nervosas entre o lobo frontal e o resto do cérebro. Foi uma cirurgia que já foi comumente usada em psiquiatria para tratar doenças mentais graves, como depressão grave e esquizofrenia, mas que agora é considerada antiética e obsoleta.
Como as lobotomias foram realizadas
A lobotomia é uma forma de psicocirurgia desatualizada e desacreditada que, até a década de 1980, era realizada em algumas partes do mundo.
A justificativa para a lobotomia era tratar os sintomas de uma ampla gama de doenças mentais, cortando a comunicação entre o lobo frontal (que regula funções cognitivas superiores, como regulação emocional e comportamentos sociais) e o resto do cérebro.
Ao fazer isso, pensava-se que a cirurgia “quebrava” padrões de comportamento e pensamento em pessoas com condições como depressão grave, esquizofrenia e transtorno bipolar (então conhecido como depressão maníaca).
Houve dois métodos principais usados historicamente para lobotomia:
- Lobotomia pré-frontal:Isso envolveu a perfuração de dois buracos em cada lado do crânio, acima de uma parte do lobo frontal, conhecido como lobo pré-frontal. O cirurgião usaria então um instrumento de metal para cortar os tecidos entre o lobo pré-frontal e o resto do cérebro ou injetaria álcool no espaço para destruir os tecidos.
- Lobotomia transorbital:Isso foi realizado levantando a pálpebra do paciente e conduzindo um dispositivo semelhante a uma palheta através da parte superior da órbita ocular com um martelo. Uma vez inserido, o instrumento cortaria as conexões entre uma parte do lobo frontal, chamada córtex pré-frontal, e o resto do cérebro.
Por que foi usado
A história das lobotomias está repleta de equívocos médicos, incluindo a crença de que as doenças mentais resultam de problemas orgânicos no cérebro e no sistema nervoso.
Muitos dos primeiros praticantes rejeitaram ou minimizaram as técnicas de psicoterapia numa época em que ainda estavam na infância, optando, em vez disso, por abordar a doença mental como um distúrbio neurológico tratável.
Os marcos no desenvolvimento e uso da lobotomia incluem:
- 1935:Inspirado nas psicocirurgias realizadas na década de 1880 pelo psiquiatra suíço Gottlieb Burckhardt, o neurologista português Egas Moniz realizou a primeira lobotomia pré-frontal com álcool, que chamou de leucotomia.
- 1936:Apesar de uma resposta hostil por parte de muitos membros da comunidade médica, Moniz publicou um artigo relatando que o seu procedimento foi bem sucedido em 14 dos 20 casos.Nesse mesmo ano, o neurologista americano Walter Jackson Freeman e o neurocirurgião James Watt realizaram a primeira lobotomia instrumentada.
- 1945:O psiquiatra italiano Amarro Fiamberti publicou um artigo no qual descreve a abordagem do lobo frontal através da órbita ocular de um paciente usando um picador de gelo, uma técnica que ele praticou em cadáveres.
- 1946:Freeman e Watt realizaram a primeira lobotomia transorbital em um paciente que foi subjugado após passar por terapia de choque elétrico.
- 1950:Com evidências crescentes dos danos da lobotomia transorbital, Watts expressou publicamente desaprovação do procedimento, chamando-o de “bárbaro” e rompendo sua parceria com Freeman.
- 1949:Moniz recebeu o Prêmio Nobel de medicina pela invenção da lobotomia pré-frontal, indicada por Freeman.
- década de 1950: Apesar do uso crescente de lobotomias nos Estados Unidos, Europa e Japão, a União Soviética proibiu a prática por motivos morais, citando uma taxa de mortalidade de 5% e uma elevada taxa de complicações pós-operatórias.
- Década de 1960:No início da década de 1960, nada menos que 50 mil pessoas haviam sido lobotomizadas nos Estados Unidos e no Canadá.Na Escandinávia, foram realizadas mais lobotomias per capita do que em qualquer outro lugar do planeta, principalmente em mulheres e até em crianças.
- 1977:O presidente Jimmy Carter criou um comitê para investigar se a psicocirurgia, incluindo a lobotomia, restringe os direitos individuais.
- Década de 1980:O neurofisiologista vencedor do Prêmio Nobel, Torsten Nils Wiesel, chamou o Prêmio Nobel a Moniz de “um erro de julgamento surpreendente… um erro terrível”.Por esta altura, a prática tinha cessado quase totalmente, com o último procedimento realizado em França em 1986.
Por que não é mais usado
Os danos potenciais da lobotomia foram reconhecidos nos primeiros dias do procedimento. Em 1937, o hospital onde foram realizadas as primeiras cirurgias de Moniz relatou que os pacientes apresentavam uma “degradação de personalidade”, acabando por denunciar totalmente o procedimento.
Hoje, os danos da lobotomia estão bem documentados. Ao separar o lobo frontal do resto do cérebro, os pacientes podem desenvolver complicações potencialmente devastadoras e para toda a vida, tais como:
- Mudanças de personalidade,incluindo apatia, avolição (falta de iniciativa), embotamento emocional, alterações de humor e inibição reduzida
- Perda da função cognitiva,incluindo memória prejudicada, concentração e resolução de problemas
- Complicações neurológicas,como movimentos bruscos, convulsões e perda de expressão facial, controle motor, sensações físicas e controle da bexiga ou intestino.
As taxas de mortalidade por lobotomia variam, mas alguns estudos sugerem que um em cada sete (14%) dos pacientes de Walter Freeman morreu durante ou logo após ser submetido a uma lobotomia.
Psicocirurgias realizadas hoje
A psicocirurgia continua sendo um campo de prática controverso, mas certas técnicas ainda são utilizadas em menor escala.
Esses procedimentos são realizados com a colaboração de um psiquiatra e de um neurocirurgião e envolvem a ablação (destruição ou remoção) de tecido cerebral para melhorar os sintomas de certas doenças mentais. A ablação pode ser feita com radiação direcionada, crioterapia (frio extremo), termocoagulação (calor) ou bisturi.
Dois exemplos ainda usados hoje incluem:
- Cingulotomia bilateral:Esta cirurgia tem como alvo uma porção interior do cérebro, chamada córtex cingulado anterior, para tratar depressão grave e resistente ao tratamento ou transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
- Capsulotomia anterior estereotáxica:Também usada em pessoas com TOC resistente ao tratamento, a cirurgia tem como alvo outra parte interna do cérebro, chamada cápsula interna. A radiação ou ondas sonoras de alta frequência criam lesões no cérebro para bloquear vias nervosas hiperativas.
Ambas as cirurgias são consideradas o último recurso quando a terapia cognitivo-comportamental e os medicamentos não conseguem proporcionar alívio a alguém catastroficamente afetado pelo TOC ou pela depressão.
Hoje, o foco da neurocirurgia para fins psiquiátricos está mudando da ablação cirúrgica para a estimulação cerebral profunda (ECP), que estimula partes do cérebro com eletrodos implantados para tratar doenças como TOC e depressão grave.
