Os benefícios potenciais dos psicodélicos para o tratamento de dependências: uma revisão das evidências

  1. Introdução

    1. Definição de psicodélicos

      Os psicodélicos são uma categoria de drogas psicoativas que podem ter efeitos profundos no estado de espírito e na consciência de uma pessoa. LSD, psilocibina (cogumelos mágicos), ayahuasca e MDMA são exemplos de alucinógenos populares. Os psicodélicos têm uma longa história de uso religioso e terapêutico em muitas civilizações.

    2. Visão geral do vício e dos tratamentos atuais

      A procura e o uso compulsivos de drogas, apesar das consequências negativas, caracterizam aqueles que sofrem de dependência, um distúrbio cerebral crônico. A medicação para dependência inclui metadona e buprenorfina para dependência de opiáceos e naltrexona para alcoolismo, enquanto terapias comportamentais como terapia cognitivo-comportamental e entrevistas motivacionais também são usadas.

    3. Objetivo e Significado do Artigo

      Neste artigo, abordaremos os possíveis benefícios dos psicodélicos para o tratamento da dependência, revisaremos as evidências disponíveis sobre seu uso e, em seguida, examinaremos alguns dos problemas e opções futuras para esse tipo de tratamento.

  2. Revisão da literatura

    1. Pesquisa atual sobre o uso de psicodélicos no tratamento de dependências

      O uso de psicodélicos para tratar o vício foi considerado eficaz em vários ensaios recentes. Um estudo realizado em 2017 indicou que 80% dos fumantes de longa data que usaram terapia assistida por psilocibina estavam livres do fumo seis meses após o tratamento (Johnson et al., 2017). A terapia assistida com ayahuasca também foi benéfica na redução dos desejos e na elevação do humor num ensaio separado com pessoas com problemas de uso de substâncias (Rush et al., 2021).

      Infelizmente, esses estudos apresentam falhas como controles inadequados e pequenos números de amostras. Mais pesquisas são necessárias para avaliar a utilidade dos psicodélicos no tratamento de vários tipos de dependência, já que a maioria dos estudos se concentrou no uso de psicodélicos no tratamento da dependência de substâncias específicas, comonicotinaeálcool.

    2. Discussão dos benefícios potenciais do uso de psicodélicos no tratamento de dependências

      Um benefício potencial do uso de psicodélicos no tratamento da dependência é que eles podem ajudar os indivíduos a obter novas perspectivas e insights sobre seu comportamento e dependência. Eles também podem facilitar o processamento emocional e ajudar os indivíduos a enfrentar e superar problemas psicológicos subjacentes que podem estar contribuindo para o seu vício.

      Os psicodélicos também podem aumentar os sentimentos de empatia e conexão, o que pode ser particularmente útil para indivíduos que lutam contra o vício e que podem se sentir isolados e desconectados dos outros. Além disso, os psicodélicos podem ter efeitos duradouros no cérebro e ajudar a redefinir as vias neurais que foram alteradas pelo vício.

      No entanto, também existem riscos potenciais associados ao uso de substâncias psicadélicas no tratamento da dependência, incluindo o potencial para reações adversas e a possibilidade de desencadear um episódio psicótico em indivíduos com histórico de doença mental. Além disso, o uso de substâncias psicadélicas no tratamento da dependência ainda não é amplamente aceite na medicina convencional e pode enfrentar barreiras legais e regulamentares.

  3. Mecanismos de Ação

    1. Visão geral de como as substâncias psicodélicas funcionam no cérebro

      Substâncias psicodélicas como psilocibina, LSD e ayahuasca são conhecidas por terem efeitos profundos na percepção, no humor e na consciência. Estas substâncias interagem com os receptores de serotonina no cérebro, particularmente o receptor 5-HT2A, que está envolvido na regulação do humor e no processamento cognitivo. Os psicodélicos também modulam a atividade no córtex pré-frontal, que está envolvido na tomada de decisões e no autocontrole, e na rede de modo padrão, que está envolvida no pensamento autorreferencial e na divagação mental.

    2. Análise de como esse mecanismo poderia ajudar o vício

      Os mecanismos de ação dos psicodélicos os tornam uma ferramenta potencialmente útil no tratamento do vício. O vício é caracterizado por estados emocionais negativos, como ansiedade e depressão, bem como pela procura e uso obsessivo de drogas. Foi demonstrado que os psicodélicos induzem mudanças profundas no humor, na percepção e na cognição que podem ajudar a quebrar o ciclo do vício.

      Uma maneira possível de os psicodélicos ajudarem o vício é interrompendo padrões de pensamento e comportamento desadaptativos que contribuem para o uso de drogas. A capacidade dos psicodélicos de induzir um estado alterado de consciência tem sido usada com grande efeito no estudo do comportamento e da motivação humana. O aumento da introspecção e da compreensão das próprias deficiências pode abrir caminho para mudanças comportamentais duradouras.

      Outra maneira pela qual os psicodélicos podem ajudar o vício é modulando o processamento emocional. A ansiedade e a depressão são companheiras comuns da dependência e podem desempenhar um papel no início ou manutenção do uso de drogas. Foi demonstrado que os psicodélicos induzem estados emocionais positivos, como admiração, felicidade e transcendência, que podem ajudar a neutralizar estados afetivos negativos e promover sentimentos de bem-estar.

    3. Discussão dos riscos e benefícios potenciais dos tratamentos psicodélicos

      Embora os psicodélicos sejam promissores como tratamento para o vício, também existem riscos potenciais associados ao seu uso. Os psicodélicos podem induzir experiências poderosas e às vezes avassaladoras que podem ser difíceis para alguns indivíduos integrarem em suas vidas. Além disso, os psicodélicos podem aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial, o que pode ser problemático para indivíduos com problemas cardiovasculares.

      No entanto, os benefícios dos tratamentos psicodélicos para o vício podem superar os riscos para alguns indivíduos. Estudos têm demonstrado que os tratamentos psicodélicos podem produzir mudanças duradouras no comportamento e no humor (Teixeira et al., 2022), mesmo após apenas uma ou duas sessões. Além disso, foi demonstrado que os tratamentos psicadélicos são bem tolerados pela maioria dos indivíduos quando administrados num ambiente controlado, sob a supervisão de um profissional de saúde treinado.

  4. Aplicações Clínicas

    1. Visão geral dos ensaios clínicos e estudos atuais sobre tratamentos psicodélicos para dependência

      Há um interesse crescente no uso de psicodélicos como tratamento para o vício, e vários ensaios clínicos e estudos estão em andamento. Uma das áreas de pesquisa mais promissoras é o uso da terapia assistida por psilocibina para o tratamento da dependência do tabaco e do álcool. Um estudo piloto recente descobriu que uma dose única de psilocibina produziu reduções significativas no uso de tabaco e álcool, bem como melhorias no humor e na qualidade de vida (Jensen et al., 2022).

      Outros estudos exploraram o uso da terapia assistida pela ayahuasca para o tratamento da dependência de cocaína e opioides. Um estudo recente descobriu que a ayahuasca produziu reduções significativas no desejo de cocaína e nos sintomas de abstinência, bem como melhorias no humor e na qualidade de vida (Hamill et al., 2019). Outro estudo descobriu que a ayahuasca produziu reduções significativas nos sintomas de abstinência de opioides, bem como melhorias no humor e na qualidade de vida (Mendes et al., 2022).

    2. Discussão dos resultados e eficácia destes estudos

      Os resultados dos ensaios clínicos e estudos sobre tratamentos psicodélicos para a dependência foram amplamente positivos. Estudos têm demonstrado consistentemente que os tratamentos psicodélicos podem produzir reduções significativas no uso e desejo de drogas, bem como melhorias no humor e na qualidade de vida (Ziff et al., 2022). Esses efeitos foram observados em períodos de acompanhamento de curto e longo prazo, indicando que os tratamentos psicodélicos podem trazer benefícios duradouros para indivíduos que lutam contra o vício.

    3. Implicações para futuras aplicações clínicas

      Os resultados promissores de ensaios clínicos e estudos sobre tratamentos psicodélicos para a dependência têm implicações importantes para futuras aplicações clínicas. As evidências até o momento sugerem que os tratamentos psicodélicos podem ser úteis na luta contra o vício, mas são necessários mais estudos para compreender completamente as potenciais vantagens e perigos desses tratamentos.

      Um dos principais desafios no desenvolvimento de tratamentos psicodélicos para a dependência é garantir que sejam administrados de forma segura e eficaz. Isto requer uma compreensão profunda dos mecanismos de ação destas substâncias, bem como uma atenção cuidadosa à dosagem, configuração e seleção do paciente. No entanto, com os protocolos adequados em vigor, os tratamentos psicadélicos poderiam oferecer uma abordagem nova e eficaz para o tratamento da dependência.

  5. Desafios e Limitações

    1. Discussão de considerações éticas e preocupações de segurança

      Uma das principais preocupações com o uso de psicodélicos em um contexto terapêutico é garantir a segurança do paciente. Os psicodélicos podem induzir experiências psicológicas intensas, que podem ser difíceis de administrar sem o apoio e orientação adequados. Além disso, o uso de substâncias psicodélicas levanta preocupações éticas relativamente à natureza da experiência em si e ao potencial de exploração. É importante que qualquer terapia assistida por psicodélicos seja conduzida em um ambiente seguro e controlado por profissionais experientes e devidamente treinados para controlar quaisquer efeitos adversos.

    2. Análise dos Desafios Regulatórios e Barreiras à Implementação

      O panorama regulatório que envolve o uso de substâncias psicodélicas num contexto terapêutico é complexo e varia de acordo com o país e a jurisdição. Os psicodélicos têm alto potencial de uso indevido e nenhum valor medicinal reconhecido, de acordo com a pesquisa divulgada em 2015, por isso são classificados como substâncias da Tabela I (Tupper et al., 2015). Essa classificação dificulta a realização de estudos pelos pesquisadores e a prescrição de psicodélicos como tratamento pelos médicos. No entanto, mudanças recentes nas políticas e na opinião pública levaram a um interesse crescente nos potenciais benefícios terapêuticos dos psicodélicos e a uma reavaliação do seu estatuto jurídico.

    3. Soluções potenciais para esses desafios

      Para superar esses desafios, uma variedade de soluções foram propostas. Isso inclui o desenvolvimento de novos compostos psicodélicos mais direcionados, que apresentam menos efeitos colaterais e são mais fáceis de administrar. Além disso, alguns investigadores propuseram modelos alternativos de cuidados, tais como terapia de grupo ou grupos de apoio liderados por pares, que podem fornecer o apoio e orientação necessários para pessoas submetidas a terapia psicadélica. Os esforços de defesa e as campanhas de educação pública também podem ajudar a aumentar a consciencialização sobre os potenciais benefícios da terapia assistida por psicadélicos e facilitar a mudança regulamentar.

  6. Direções Futuras

    1. Análise de possíveis pesquisas futuras sobre o uso de psicodélicos no tratamento de dependências

      Os efeitos dos psicodélicos e sua utilidade potencial no tratamento da dependência ainda são pouco compreendidos. Pesquisas futuras poderiam se concentrar na compreensão dos mecanismos de ação neurais e psicológicos subjacentes e na identificação dos protocolos de tratamento mais eficazes. Além disso, a investigação poderia explorar o uso de substâncias psicadélicas em combinação com outras terapias, como a terapia cognitivo-comportamental ou intervenções baseadas na atenção plena.

    2. Discussão de desafios e limitações no campo

      Existem vários obstáculos e limites ao tratamento assistido por psicodélicos que devem ser superados antes que ele possa atingir todo o seu potencial. Estas incluem preocupações éticas em torno do uso de substâncias psicadélicas, barreiras regulamentares à investigação e ao tratamento e a falta de profissionais formados com as competências e experiência necessárias para conduzir a terapia assistida por substâncias psicadélicas.

    3. Implicações potenciais para o futuro do tratamento da dependência

      O uso de psicodélicos no tratamento da dependência tem o potencial de revolucionar o campo e fornecer opções de tratamento novas e eficazes para aqueles que lutam contra a dependência. No entanto, isto exigirá um esforço concertado por parte de investigadores, decisores políticos e prestadores de cuidados de saúde para enfrentar os desafios e limitações da terapia psicodélica assistida e garantir que esta seja conduzida de forma segura e responsável.

  7. Conclusão

  1. Resumo das principais conclusões

    Concluindo, o uso de psicodélicos no tratamento da dependência mostra-se promissor como ferramenta terapêutica, mas existem desafios e limitações significativos que precisam ser abordados.

  2. Discussão do impacto potencial dos tratamentos psicodélicos no vício

    Apesar dos desafios e limitações, o impacto potencial dos tratamentos psicadélicos na dependência pode ser significativo. A pesquisa mostrou que os psicodélicos podem produzir mudanças profundas e duradouras no humor, no comportamento e nas perspectivas, o que pode ser especialmente benéfico para indivíduos que lutam contra o vício. Além disso, a terapia assistida por psicodélicos pode ajudar a resolver problemas psicológicos subjacentes que podem contribuir para comportamentos de dependência, como trauma ou ansiedade.

  3. Considerações finais sobre o futuro dos tratamentos psicodélicos para o vício

    Há um crescente interesse e apoio ao uso terapêutico de psicodélicos, mas o futuro de seu uso no tratamento da dependência é duvidoso. Parece previsto que a terapia psicodélica assistida se tornará uma opção de tratamento mais comumente aceita e acessível para pessoas que lutam contra o vício à medida que mais pesquisas forem concluídas e as restrições regulatórias forem removidas. Porém, deve-se ter cuidado para garantir que esses procedimentos sejam realizados de maneira responsável e segura, colocando a saúde e a segurança do paciente em primeiro lugar.

Referências:

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